Que a indústria da moda vem necessitando uma transgressão não é novidade, venho abordando assuntos sobre por aqui há algum tempo. O SPFW N47 tendo como tema da edição “Utopia”, buscou provocar sentimentos e questionamentos sobre a projeção de um novo mundo que estamos prestes a construir, segundo a ideologia de Paulo Borges, fundador e diretor criativo da quinta maior Semana de Moda do mundo.
Com o Projeto Estufa, lançado em 2017, novas marcas com novas ideologias e posicionamento que ultrapassam a moda convencional tem entrado no lineup do evento. O Projeto Estufa tem como intuito agir como uma plataforma que, por meio de desfiles e apresentações de moda, busca provocar diálogos e reflexões de olho no desenvolvimento de iniciativas que vão pautar o futuro dos negócios criativos.
Parece que a moda está entre dois polos. De um lado se encontra essa nova estrutura de moda consciente, desde o pensamento critico, passando pela produção até o consumidor final, e do outro o problemático do consumo desenfreado, que acarreta na produção e confecção absurda de itens novos de moda, estes que ainda muitas vezes feitos sob as mãos de trabalho análogo ao escravo e causando impacto não só ao meio social, mas ao meio ambiental devido a todo recurso envolvido na produção, como o desperdício de água por exemplo.

Flavia Aranha trabalha com praticamente toda a mão-de-obra artesanal, utiliza tecidos e pigmentos naturais, não agredindo o ambiente. Ao fim do desfile, ela aparece com toda sua equipe para receber os aplausos da sua moda ética e honesta.

Como boa aquariana, eu amo um protesto em passarela. A mineira LED apresentou a coleção “Zangada’’ em parceria com a ilustradora Thereza Nardelli, criadora da obra “Ninguém solta a mão de ninguém” que viralizou nas redes sociais em época das eleições brasileira 2018. Thereza assinou as estampas da coleção, onde junto de Celio Dias, diretor criativo da marca, criaram frases como “Meu mito sou eu”. A LED é uma marca que vem do projeto Top 5, e agora integra o lineup oficial da semana de moda com a sua estética e política agênero.

Ronaldo Fraga se inspirou na obra “Guerra e Paz” de Candido Portinari. O artista faleceu em 1962, dois anos antes do que seria a Ditadura Militar no Brasil, e deixou uma obra lírica e política criticando a opressão. Ronaldo em sua coleção, escreve uma carta fictícia a Portinari perguntando o que o artista pintaria hoje diante a situação atual do país. As imagens do desfile por si só já respondem.

Fala-se sobre o lixo no oceano e o cuidado com o meio ambiete, a MiPinta faz da passarela um continente feito de lixo e habitado por criaturas meio homem meio plástico. A crítica dói, é linda, e dura. Eu amo a estética e o conceito na composição das peças, que usadas separadas tornam-se comerciais. Porém eu e meus olhos atentos nos adentramos no que tem a mais do contorno dessa coleção. Como criticar a sociedade por um mundo sustentável utilizando de matéria prima como o plástico e tecidos sintéticos que nada fazem jus ao conceito proposto?

Uma essência de moda pouco vista no Brasil no quesito “moda sem gênero’’ foi apresentada por Victor Hugo Mattos. Sou da opinião de que moda sem gênero não é todo mundo vestir calça larga e camiseta, mas vestir o que bem entender.

A marca Handred que utiliza muito de tecidos naturais e uma moda fluída, no âmbito do conforto e da liberdade de gênero, trouxe a verdadeira diversidade no seu casting, sem precisar se promover disso. Para entender do que estou falando da uma olhadinha no último post sobre o desfile do Amir Slama. Ah, ênfase no batom vermelho usado por um homem, lindíssimo.

A iniciativa de Gustavo Silvestre no projeto Ponto Firme é outra causa para se atentar. São utilizadas técnicas artesanais, como o crochê para ensinar detentos da Penitenciária Adriano Marrey, em Guarulhos, com o intuito de inseri-los no mercado de trabalho e não a vida de volta ao crime. O projeto acontece desde 2015 e é a segunda vez que desfila no SPFW.