Preciso admitir uma coisa: sou e sempre fui uma idiota por comédias românticas. Justamente por isso posso afirmar que houve um hiato longo onde o número de bons filmes do gênero ficou bem perto do zero. Mas, principalmente desde 2018, as produtoras resolveram dar outra chance para o gênero e uma nova era surgiu. Quando eu digo produtoras leia-se Netflix, porque se tem uma responsável principal por reviver as comédias românticas é o streaming. Houve-se um tempo em que filmes de romance eram um dos gêneros que mais lucrava no cinema mundial. Julia Roberts e provavelmente todos os filmes que John Hughes fez nos anos 80 estão aí como prova. Roberts viu seu sucesso explodir mundialmente por conta de uma comédia romântica, fazendo com que ela estrelasse muitas outras excelentes até o fim dos anos 90, e John Hughes nos presenteou com um dos maiores clássicos do cinema, o Clube dos Cinco (The Breakfest Club – 1985). Essas duas décadas estão abarrotadas de comédias românticas que são sucesso até hoje, mas digamos que o gênero começou a ter uma decaída na primeira década dos anos 2000. Dois dos principais filmes antes de 2005 que me vem à cabeça são O Diário de Bridget Jones (Bridget Jones Diary – 2001) e Simplesmente Amor (Love Actually – 2003) que ainda possuem certas semelhanças com os sucessos dos anos anteriores e por isso se tornaram tão conhecidos. Aos poucos, as pessoas se cansaram de ver a mesma premissa com atores e situações diferentes e a criatividade dos roteiristas se esgotou, fazendo com que a quantidade de bons filmes do gênero fosse cada vez menor. Mas uma verdade precisa ser dita, as comédias românticas nunca foram muito bem tratadas ou vistas com seriedade, o gênero sempre foi um tanto rebaixado por ser considerado “um filme para mulheres”, como se isso fosse algo ruim ou como se histórias de romance fossem feitas exclusivamente para o público feminino. E eu nem vou entrar em detalhe do quão problemática é essa associação unicamente feminina ao romance. Então, dá pra entender esse ressurgimento do gênero atualmente. A fórmula desses filmes continua sendo a mesma, porque fórmula é fórmula, ela pode e deve sofrer mudanças pra se tornar melhor, mas você não a pode mudar por completo, senão ela deixa de ser o que era. E comédias românticas precisam seguir uma linha narrativa de: garoto conhece garota, eles gostam um do outro logo de cara ou não, eventualmente eles se apaixonam, brigam, se separam e na ultima cena do filme, fazem as pazes e terminam juntos e felizes para sempre. Quando alguém resolve assistir qualquer filme do gênero já precisa ter a noção de que é isso o que irá assistir, então o que faz um filme assim ser bom ou ruim é o percurso desses personagens e a química entre eles.
Então ao mesmo tempo que o gênero entrou em decadência desde o início dos anos 2000 nós tivemos filmes com altíssima qualidade que conseguiam desviar da grande parte da crítica voltadas para eles, 500 Dias Com Ela (500 Days of Summer – 2011), Amor à Toda Prova (Crazy Stupid Love – 2011) e Questão de Tempo (About Time – 2013) são alguns dos meus filmes preferidos – dentro e fora do gênero. Os três são longas bem diferentes e que tratam a comédia romântica de formas que não eram nada comuns. 500 Dias Com Ela mexe em um dos principais pontos do gênero, o final, e por mais que seja considerada uma comédia romântica, o narrador deixa bem claro desde o começo: não é um filme de amor. Amor à Toda Prova além de ser realmente engraçado, traz situações que são totalmente relacionáveis à vida real e os personagens são muito bem desenvolvidos, o que muitas vezes era deixado de lado. E Questão de Tempo não é sobre as dificuldades de um casal em ficarem juntos, é um filme que vai muito além disso e acabada sendo uma mistura de comédia, romance e drama, da melhor qualidade que se pode esperar. Mas essas foram algumas das poucas exceções até a época, e na verdade o que a gente nem sabia era que precisava de mais filmes do gênero. Quem nos provou isso foi, obviamente, a Netflix. A anos que a maioria dos estúdios de cinema recusavam quase todas as propostas de comédias românticas que lhes apareciam. A roteirista Dana Fox, de filmes conhecidos como, Jogo de Amor em Las Vegas (What Happens in Vegas – 2008), Encontro de Casais (Couples Retreat – 2009) e do mais recente sucesso da Netflix Megarromântico (Isn’it Romantic – 2019) conta que muitas vezes ela tentava vender os roteiros para os estúdios os chamando de qualquer coisa que não fosse comédia romântica, mesmo que ele claramente fossem uma, porque nenhum estúdio sequer daria bola para o filme se soubesse que era uma comédia romântica.
A Netflix provavelmente foi a primeira a resolver trazer o gênero de volta porque percebeu que mais de 80 milhões de seus usuários assistiram a comédias românticas em 2017, isso são dois terços de todos os seus assinantes. Dois dos primeiros sucessos do streaming foram O Plano Imperfeito (Set It Up – 2018) e Para Todos os Garotos Que Já Amei (To All The Boys I Loved Before – 2018). Ambos os filmes trouxeram mudanças para o gênero, em O Plano Imperfeito, além da ótima química entre os protagonistas e da construção das personagens femininas, as roteiristas souberam aproveitar cenas que seriam completamente mundanas e torná-las memoráveis. Em Todos os Garotos Que Já Amei a protagonista possui descendência asiática, por mais que, de acordo com a autora do livro Jenny Han, todos os produtores com quem ela conversou tentaram tornar sua protagonista branca. Podres de Rico (Crazy Rich Asians – 2018) não foi produzido pela Netflix mas entra para a nova era do gênero por seu elenco majoritariamente asiático e pela qualidade no desenvolvimento da história. A nova era da comédia romântica traz o que o gênero tinha de melhor desde seu sucesso absoluto que começou nos anos 80 e reformula suas histórias para que elas sejam mais representativas e menos ofensivas. O papel da mulher nesses novos filmes é provavelmente a maior mudança de todas. Era muito comum ver comédias românticas tratando a mulher como um objeto e mudando suas vidas para se adequar à de seu par romântico ao fim da história, ou da mulher que precisa passar por uma grande transformação na aparência para se tornar desejável. Essa nova era abraça as mulheres e as retratam de uma forma muito mais verdadeira e com muito maior profundidade, suas personalidades não são mais definidas pelo tipo de homem que escolhem, elas possuem sonhos e carreiras e já não deixam tudo para trás para ficar com quem amam, elas amam a si mesmas. O principal motivo de toda essa mudança, é que o número de mulheres roteiristas e cineastas vem crescendo, as mulheres estão finalmente contatando cada vez mais histórias sobre mulheres, porque por muitos anos a representação feminina foi feita pelos através dos olhos de homens e você não precisa ter assistido muitos filmes mais antigos pra saber que a maioria dos homens não sabia escrever sobre mulheres. É um fator que explica porque tantas personagens femininas ou eram pouquíssimos exploradas ou retratadas completamente fora da nossa verdadeira realidade. A inclusão e a representatividade acabaram interferindo positivamente para um ressurgimento das comédias românticas, o que prova que diferente do o The Hollywood Reporter declarou em 2013, as comédias românticas não estão mortas, e elas são mais bem-vindas do nunca.
Eu talvez tenha me prolongado só um pouco a mais do planejado, mas de fato eu me empolguei um pouco, então vou deixar abaixo alguns títulos com sinopses de comédias românticas que fazem parte dessa nova era e que valem o seu tempo.
Podres de Ricos (Crazy Rich Asians – 2018)

Rachel Chu é uma professora de economia nos EUA e namora com Nick Young há algum tempo. Quando Nick convida Rachel para ir no casamento do melhor amigo, em Singapura, ele esquece de avisar à namorada que, como herdeiro de uma fortuna, ele é um dos solteiros mais cobiçados do local, colocando Rachel na mira de outras candidatas e da mãe de Nick, que desaprova o namoro.
O Plano Imperfeito (Set It Up – 2018)

Harper (Zoey Deutch) e Charlie (Glen Powell) trabalham como assistentes para dois executivos em Manhattan. O temperamento e a dinâmica de seus chefes transformam suas vidas em um verdadeiro inferno. Desesperados e exaustos, os dois jovens se juntam para elaborar um plano um tanto quanto ousado: fazer com que os seus superiores se apaixonem e, dessa forma, fiquem mais tranquilos em relação ao trabalho.
Com Amor, Simon (Love, Simon – 2018)

Aos 17 anos, Simon Spier aparenta levar uma vida comum, mas sofre por esconder um grande segredo: não revelou ser gay para sua família e amigos. E tudo fica mais complicado quando ele se apaixona por um dos colegas de classe, anônimo, na internet.
A Barraca do Beijo (The Kissing Booth – 2018)

Melhores amigos desde sempre, Elle (Joey King) e Lee (Joel Courtney) têm a inventiva ideia de gerenciar uma barraca do beijo durante um evento da escola. Para fazer da proposta um sucesso, a garota tenta convencer o galã Noah (Jacob Elordi), seu crush e irmão mais velho de Lee, a participar da brincadeira. Ele mostra-se irredutível, mas os dois acabam se aproximando como nunca, o que estremece a amizade de Elle e Lee
Meu Eterno Talvez (Always Be My Maybe – 2019)

Todos achavam que Sasha e Marcus acabariam juntos. Todos, menos eles próprios. No reencontro, depois de 15 anos, os dois começam a imaginar: quem sabe?. Ok eu precisei deixar um recado nesse aqui, Keanu Reeves está no filme como ele mesmo e só pela curta participação dele no longa e pela música escrita para ele durante os créditos já vale muito a pena assistir.
Megarromântico (Isn’t It Romantic? – 2019)

Natalie (Rebel Wilson) é uma jovem arquiteta que se empenha para ser reconhecida por seu trabalho. Ela que sempre foi uma cética quanto ao amor, tem um encontro conturbado que termina com ela sendo assaltada e deixada inconsciente. Quando acorda. a moça vê que misteriosamente foi parar em um filme de comédia romântica.