Não foi até eu decidir qual seria o tema dessa coluna que eu me perguntei qual teria sido a primeira adaptação literária para o cinema. O que descobri fazendo a pesquisa foi que os artigos sobre o assunto são um tanto inconsistentes. Isso porque encontrei mais de um filme considerado a primeira adaptação de um livro para o cinema. Com uma pesquisa um pouco mais aprofundada finalmente descobri qual foi de fato a primeira adaptação, Trilby e o pequeno Billee de 1896, um filme de apenas 22 segundos. Lembrando que os irmãos Lumière exibiram o filme A Chegada do Trem na Estação, considerado o primeiro filme da história, ao grande público em dezembro de 1895. Então, diferente do que alguns acreditam, Sherlock Holmes Perplexo (Sherlock Holmes Baffled) pode ser o personagem literário que mais ganhou adaptações, mas não foi o primeiro a ir parar no cinema. O filme de menos de 1 minuto foi gravado em 1900 mas registrado apenas em 1903, mesmo ano de lançamento da primeira adaptação de Alice No País das Maravilhas. Mas chega de números históricos porque esse não é o ponto principal que quero chegar e nem o que vocês querem ficar lendo que eu sei. Vamos à parte realmente interessante agora.
Se vocês são como eu, adoram saber que um livro que gostam ganhará uma adaptação cinematográfica. Caso contrário, não gostam muito porque acham que adaptações não fazem jus aos livros. Isso é algo bem coerente e de fato muitas vezes os filmes pecam ao reproduzir um livro em formato cinematográfico, mas ao mesmo tempo muitos desses livros não passam de meras adaptações e para funcionarem no cinema podem precisar sofrer cortes considerados importantes pelos leitores. A primeira coisa que precisa ser compreendida é: a linguagem literária e a linguagem cinematográfica são bem diferentes. O que um diretor e um roteirista precisam fazer, é criar uma obra coerente com a original moldando ela de acordo com a narrativa do cinema que possui um ritmo diferente, que não irá apresentar tantos detalhes quanto os livros e que muitas vezes não terá tempo suficiente para se aprofundar em seus personagens, como é comum na literatura. Mas o que o cinema pode fazer é não apenas dar vida aos personagens, mas recriar o mundo apresentad no livro em formato visual, então os detalhes podem não vir em longas narrações sobre como uma pessoa se parece ou o que passa na cabeça de um personagem ou até mesmo os detalhes mínimos de uma casa, um castelo, um hotel, um universo inteiro ou o que for, mas em imagens e sons. A experiência muda completamente.
Tudo isso significa que é possível manter a qualidade de um ótimo livro ao adapta-lo para o cinema. No livro “The Novel and Cinema” de Geoffrey Wagner ele diz que existem 3 formas de adaptar um livro, a primeira diz que a obra cinematográfica pode ser totalmente fiel à obra literária e sofrer apenas cortes de cenas dispensáveis, isso para que a história possa ser contada dentro do limite de tempo definido para o longa mantendo sempre sua coerência (no caso de séries de tv apenas as cenas que não agregam em nada no rumo da história saem do produto final), a segunda forma diz que uma obra cinematográfica pode ser parcialmente fiel à obra literária e manter o sentido e a coerência de seu livro de origem mas sofrer algumas alterações de acordo com o que o diretor quer passar com o produto final (que pode ou não ser o mesmo que o autor da obra literária) e por último, existe também a possibilidade do diretor pegar a ideia de uma obra literária e criar a própria história ou interpretação em cima daquele produto original. Se bem executas, todas essas formas são bem válidas. Onde Os Fracos Não Tem Vez (No Country For Old Man – 2007) dos irmãos Coen, é um filme bem fiel ao livro que lhe deu origem, o longa mantêm inclusive boa parte dos diálogos do livro intactos e o melhor de tudo, conseguiu ser tão bom quanto ou ainda melhor que sua versão literária. Outro exemplo é a saga Jogos Vorazes (The Hunger Games – 2012) que também se manteve muito fiel à sua obra originária, mas, que mesmo com a contribuição da autora dos livros no roteiro, não conseguiu manter sua qualidade no primeiro filme da saga. Laranja Mecânica (A Clockwork Orange – 1972) por mais fiel que seja à sua obra literária possui um desfecho diferente do original e com isso, cria um distanciamento do livro que lhe deu origem, assim como o também clássico Dracula de Bram Stoker (Bram Stroker’s Dracula – 1992) que por mais similar que seja à obra de Stoker sofre algumas alterações mas não perde o sentido do famoso livro original. Ambas as adaptações foram excelentes e fizeram jus à dois livros importantes, mesmo com a interferência criativa de seus diretores. Outro grande clássico do cinema é O Iluminado (The Shinning – 1980) que por mais que tenha sido baseado no livro de Stephen King, se difere bastante do que o autor criou em sua obra mudando não só o roteiro, mas também parte da personalidade de seu protagonista.
Portanto, para uma boa adaptação de uma obra literária para o cinema ou até mesmo para a tv, é fundamental que diretor e roteirista entendam e conheçam a obra tanto quanto seu autor, porque, no fim das contas, esse é o segredo para o primeiro passo de sucesso para uma excelente adaptação de uma obra literária ao cinema, mantendo sua essência e originalidade intacta . Abaixo vou listar algumas das obras que souberam fazer jus à suas versões literárias e algumas que acabaram falhando na hora de tirá-las do papel.
Harry Potter (2001-2011)

A maravilhosa série de livros criada pela escritora britânica J.K Rowling foi publicada entre 1997 e 2007, a adaptação para o cinema começou em 2001. Assim como na obra da autora, a trama cinematográfica é centrada em Harry Potter, um jovem que descobre ser bruxo e é enviado para estudar em uma escola de magia e bruxaria. Mesmo agora relendo a série eu volto a afirmar que Harry Potter é a minha série literária preferida, e consequentemente eu amo assistir aos filmes, com algumas poucas exceções, os 8 filmes do universo de Rowling conseguiram fazer jus aos seus livros.
As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower – 2012)

Charlie (Logan Lerman) é um jovem que tem dificuldades para interagir em sua nova escola. Com os nervos à flor da pele, ele se sente deslocado no ambiente. Seu professor de Literatura, no entanto, acredita nele e o vê como um gênio. Mas Charlie continua a pensar pouco de si até o dia em que, Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson), passam a andar com ele. Essa é provavelmente uma das melhores adaptações literárias para o cinema e um dos meus livros preferidos, além da obra ser incrível, o filme consegue alcançar as expectativas e faz jus total à sua obra literária. Claro que um fator importante pra a qualidade alta do longa é o fato dele ser dirigido e roteirizado por Stephen Chbosky, autor do livro em que o longa é baseado.
Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim Vs. The World – 2010)

Scott Pilgrim (Michael Cera) tem 23 anos, integra uma banda de colégio, vive trocando de emprego e tem um namoro firme. Sua vida está maravilhosa, até conhecer Ramona V. Flowers (Mary Elizabeth Winestead). Ele logo se apaixona perdidamente por ela, só que não será fácil conquistar seu amor. Para tanto ele precisa enfrentar os sete ex-namorados dela, que estão dispostos a tudo para impedir sua felicidade com outra pessoa. Esse é outro exemplo de uma adaptação que consegue chegar à altura de sua obra original, que no caso aqui são os quadrinhos do canadense Bryan Lee O’malley. O filme consegue ser tão original quanto a obra literária, e se você já conhece os quadrinhos sabe muito bem que originalidade Scott Pilgrim tem de sobra.
Garota Exemplar (Gone Girl – 2014)

Amy Dunne (Rosamund Pike) desaparece no dia do seu aniversário de casamento, deixando o marido Nick (Ben Affleck) em apuros. Ele começa a agir descontroladamente, abusando das mentiras, e se torna o suspeito número um da polícia. Com o apoio da sua irmã gêmea, Margo (Carrie Coon), Nick tenta provar a sua inocência e, ao mesmo tempo, procura descobrir o que aconteceu com Amy. O roteiro do longa foi escrito pela própria autora Gillian Flynn, então quando você pega um livro de altíssima qualidade e pede que a própria autora o adapte para o cinema, as chances são que o filme será tão bom quanto sua versão literária.
Garota, Interrompida (Girl, Interrupted – 2000)

Em 1967, após uma sessão com um psicanalista que nunca havia visto antes, Susanna Kaysen (Winona Ryder) foi diagnosticada com Transtorno de Personalidade Limítrofe ou "borderline", uma aflição com sintomas tão ambíguos que qualquer garota adolescente pode ser enquadrada. Enviada para um hospital psiquiátrico, ela conhece um novo mundo, repleto de jovens garotas sedutoras e transtornadas. Entre elas está Lisa (Angelina Jolie), uma charmosa sociopata que organiza uma fuga. O filme pode não ser tão intimista quanto o livro, já que ele foi escrito pela própria Susanna Kaysen, mas é uma excelente adaptação do que foi a vida de Susanna depois do diagnóstico que recebeu.
Coraline (2009)

Enquanto explora sua nova casa à noite, a pequena Coraline descobre uma porta secreta que contém um mundo parecido com o dela, porém melhor em muitas maneiras. Todos têm botões no lugar dos olhos, os pais são carinhosos e os sonhos de Coraline viram realidade por lá. Ela se encanta com essa descoberta, mas logo percebe que segredos estranhos estão em ação: uma outra mãe e o resto de sua família tentam mantê-la eternamente nesse mundo paralelo. Essa animação em stop motion é de deixar até os adultos com medo. Coraline é uma adaptação maravilhosa e que sofreu algumas mudanças com relação ao livro, como a criação de um personagem que não existe na obra literária, mas todas as mudanças feitas do livro para o filme funcionaram muito bem e só tornaram a obra cinematográfica ainda melhor. Essa é com certeza uma das melhores adaptações de livros para o cinema onde ambas as obras, mesmo com suas diferenças, são maravilhosas.
Doutor Jivago (Doctor Zhivago – 1966)

A jovem e linda Lara está apaixonada por três homens: um revolucionário, um magnata e o médico Jivago. As histórias deles se conectam durante a Revolução Russa do início do século XX. Doutor Jivago ainda é casado quando conhece Lara, mas a história deles se desenvolve diante a revolução, afetando a carreira do médico, da sua família e do amor dele por Lara. O filme, por mais longo que seja com as suas mais de 3h de duração é belíssimo e sem dúvidas faz jus a uma das obras mais emblemáticas da literatura.
Ver também: Império do Sol (Empire of the Sun – 1988), Apocalypse Now (1979), A Lista de Schindler (Shindler’s List – 1993), It (2017), Na Natureza Selvagem (Into The Wild – 2007)
Filmes com livros ótimos, mas que falharam na execução.
Harry Potter e o Enigma do Príncipe

Lorde Voldemort (Ralph Fiennes) é uma ameaça real, tanto para o mundo dos bruxos quanto o dos trouxas. Harry Potter (Daniel Radcliffe) suspeita que o perigo esteja dentro de Hogwarts, mas Alvo Dumbledore (Michael Gambon) está mais preocupado em prepará-lo para o confronto final com o Lorde das Trevas e chama seu amigo Horácio Slughorn para ajudá-lo em sua preparação. Paralelamente, Harry se vê cada vez mais interessado em Gina, e Hermione morre de ciúmes de Ron, mas prefere não dizer nada. Como uma boa fã da série eu preciso admitir quando um dos filmes da saga não consegue ser tão bom quanto poderia. O que todo fã de Harry Potter deve concordar comigo é que o filme que mais deixou a desejar (e para mim é o único que ficou bem abaixo das expectativas) foi o 6º filme da franquia, Harry Potter e o Enigma do Príncipe, que cortou momentos importantes do livro e modificou excessivamente outros, e o fez de maneira que não agradou à nenhum leitor da série. O livro é excelente e longo, porém algumas alterações e cortes o fizeram perder elemento fundamentais apresentados no livro. Mesmo assim, não considero o filme nem um pouco ruim, mas quando comparado à sua versão literária ele está bem abaixo em qualidade.
A Menina que Roubava Livros (The Book Thief – 2013)

Durante a Segunda Guerra Mundial, uma jovem garota chamada Liesel Meminger sobrevive fora de Munique através dos livros que ela rouba. Ajudada por seu pai adotivo, ela aprende a ler e partilhar livros com seus amigos, incluindo um homem judeu que vive na clandestinidade em sua casa. Enquanto não está lendo ou estudando, ela realiza algumas tarefas para a mãe e brinca com o amigo Rudy. Esse é um de meus livros preferidos e por mais que o filme seja bonito e emocionante, ele falha em alguns aspectos de narrativa. Os personagens, tirando Liesel e Rudy, possuem suas personalidades bem reduzidas no longa e a afeição que criamos pelos pais adotivos de Liesel e Max nos livros por exemplo, é muito maior que a que foi construída no longa. Mesmo assim recomendo o filme, pois sua qualidade diminui principalmente quando o comparamos à sua obra literária, por si só, ele é um filme que o grande público gostou bastante.
O Extraordinário (Wonder – 2017)

Auggie Pullman é um garoto que nasceu com uma deformidade facial, o que fez com que passasse por 27 cirurgias plásticas. Aos 10 anos, ele irá frequentar uma escola regular, como qualquer outra criança, pela primeira vez. No quinto ano, ele precisa se esforçar para conseguir se encaixar em sua nova realidade. O livro é lindo, delicado e retrata de forma leve as dificuldades que Auggie possui na vida e faz tudo isso de forma real, sem tentar minimizar o bullying que o garoto sofre na escola ou todas as dificuldades que ele enfrenta desde que se entende por gente. O filme também consegue contar a história de forma leve e delicada, o problema aqui é provavelmente foi leve e delicada demais. Esse é um exemplo de como um método pode funcionar em um meio narrativo e no outro não. Ao ler o livro você sente tudo o que Auggie está passado, você sofre com ele e sente o que ele sente, e tudo isso sem precisar abordar essas questões de forma mais adulta, já que todo o livro é contado pelo ponto de vista do garoto. Mas no filme esses sentimentos são amenizados e havia a necessidade de abordar certos momentos de uma forma mais madura. O filme ainda assim é bom, se for analisado como uma obra independente, caso contrário, leia o livro e se emocione de verdade.
Como absolutamente qualquer lista, eu poderia citar aqui mais uns 20 filmes que foram muito bem adaptadas para o cinema, mas, mais uma vez, me contive a alguns que considero de altíssima qualidade, tanto em livro, quanto em filme.