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Moradora de Sombrio denuncia racismo

Após um vídeo gravado por um jovem negro viralizar na semana passada, onde um casal o acusava de ter roubado uma bicicleta, foi a vez da Balneário Camboriú revelar o racismo. Dois influencers deram queixa de injúria racial pela terceira vez. Infelizmente, o racismo é uma realidade pela qual milhares de pessoas negras passam todos os dias. Velado ou dito com todas as letras. Em tom de insinuação ou de ameaça. O Portal Uaaau ouviu os relatos de uma moradora de Sombrio que contou alguns episódios de racismo vividos por ela, que prefere não se identificar, temendo represálias.

Rio de Janeiro

Semana passada, no Rio de Janeiro, um jovem negro a bordo de uma bicicleta elétrica foi confrontado por um casal branco, que o acusou de roubo da bicicleta. A acusação foi filmada pelo Matheus Ribeiro, dono da bicicleta e postada nas redes sociais. O vídeo viralizou.

- Você pegou essa bicicleta, ali agora, não foi?, perguntou o homem.

- É sim, essa bicicleta é minha, insistiu a mulher.

O verdadeiro ladrão da bicicleta foi encontrado dias depois. Se trata de Igor Martins Pinheiro, branco, com 22 anos de idade e 28 anotações criminais, sendo 14 delas por furto de bicicletas.

O caso que ganhou repercussão nacional terminou com o casal demitido das empresas em que trabalhavam e uma ação, questionada por muitos, da delegada Natacha Alves, de calúnia e difamação e não de injúria racial.

Balneário Camboriú

Aqui em Santa Catarina, em Balneário Camboriú, a Polícia Civil instaurou um inquérito para apurar as denúncias feitas pelas redes sociais por Ed Rocha Jr e Tiane Felix, ele, produtor e influenciador digital e ela, modelo e influenciadora digital, ambos negros.

Os ataques contra os dois se iniciaram em 2019 e persistiram. Três Boletins de Ocorrência já foram registrados.

Em uma mensagem de voz enviada por uma social, Ed ouviu "neguinho, veado e macaco" junto com sons que imitam o rugido do animal.

Um de seus defensores na rede social recebeu a foto de uma arma de fogo, com o seguinte texto: "Olha bem para essa coisinha linda. E depois você vai saber como será seu fim”.

Tiane ainda recebeu mensagens de ameaça de morte que citavam seu endereço: "Sua família vai te encontrar morta na cozinha".

Sombrio

Mais perto daqui, muito mais perto, em Sombrio, o racismo também mostra sua cara. O Portal Uaaau conversou com uma moradora da cidade que contou episódios de racismo, velados e declarados, mostrando a dura realidade que atinge a população negra. 

Tu é diarista?

“Uma noite, retornando da faculdade, uma pessoa na rua me abordou e perguntou se eu era diarista, se eu fazia faxina. Do nada. Eu não paro uma pessoa do nada e perguntou se faz faxina. Eu nunca fiz isso. Tu já fez isso? Me perguntei: por que pra mim? Será que perguntou para outras pessoas? Se é racismo ou não, tu pode formar sua opinião. Mas eu que estava na situação e vi o olhar do rapaz, sei que foi racismo.”

Sua cor não ajuda

“Procurando emprego aqui em Sombrio, uma pessoa de muito poder e influência na cidade prometeu de me ajudar. Na sala, ela chamou outros profissionais da instituição, e falou em tom de voz de consolo: ‘Olha só, tu tem que entender que aqui em Sombrio as coisas funcionam diferente. Aqui é por quem indica e por quem conhece... Vai ser difícil tu conseguir emprego, nosso país está em crise e sua cor também não ajuda'.

Fiquei pensado: o que passou na cabeça desta pessoa pra ter coragem de falar aquilo pra mim. Pra ter coragem de assumir que uma cidade inteira ainda tem o racismo em seu colo? O que essa pessoa tem na cabeça para assumir o racismo de uma cidade inteira? A gente tem então que lidar com ele? Não deveríamos destruir esse comportamento ao invés de alimentar ele? Temos mesmo que conviver com isso?”

Eu vi o racismo nos olhos dele

“As seleções de emprego são difíceis. Meu currículo é muito bom, sempre estudei muito! Nos processos de seleção e entrevistas, muitos participantes diziam pra mim: tu com certeza vai conseguir, vai passar. Teu currículo é muito bom, tu fala muito bem, tem muita competência para a vaga, a vaga já é tua.

Muitas foram as entrevistas e eu não conseguia uma vaga. Por que será? Será que simplesmente eu não tinha o perfil da vaga? Mesmo os outros participantes achando que eu devia ser contratada? Você pode ter sua opinião sobre o caso, mas eu olhei os entrevistadores e o racismo presente nos olhos deles.”

Reflexões sobre o racismo

Em uma conversa muito importante, ela contou ao Portal Uaaau como é ser uma pessoa negra, preta como ela prefere “afinal, preto é o inverso de branco, não?”

“Quando nós, pessoas pretas, vamos a um supermercado que não tem guarda-volumes, evitamos pôr as mãos no bolso, ficamos com as mãos à vista ou mesmo pedimos para mochila ser guardada em algum canto do mercado. Só para evitar criar uma situação de acusação injusta. Meus amigos pretos sempre evitam ser acusados injustamente. Tu que é branco, tem medo de entrar de mochila num mercado? Tem medo de ser acusado injustamente?

A maioria das pessoas negras, como eu, vêm de regiões periféricas, fruto da recente abolição. Minha tataravó ainda estava lá. Era escrava. Depois da abolição negros não poderiam ser proprietários de terra. Negro não poderia frequentar a escola. Como poderiam naquela época ter uma profissão? Como melhorar a vida?

O racismo tira várias coisas da gente. Tira nossa saúde, educação, nossa coragem, nossa autoestima. Tira nossos dons, nossas oportunidades, nossa cultura e tira nossa vida.

O racismo dá tanto medo na gente que eu, pessoa negra, pra falar dele para o Portal Uaaau, não revelo minha própria identidade com medo de que o racismo tire meu trabalho. De que o racismo tire minhas oportunidades de novo. Que o racismo me agrida de novo. Diga não ao racismo. Somos todos iguais. Precisamos reestabelecer o respeito. Tenha empatia, escute e aprenda.”

As estatísticas não mentem

Cento e trinta e um anos se passaram desde a abolição da escravidão e as marcas da exploração perduram ainda. As diferenças entre brancos e pretos no que se refere ao acesso à educação, políticas públicas, empregos e salários são gritantes.

Para se ter uma ideia, em nosso estado, Santa Catarina, de acordo com o IBGE, os pretos e pardos ganham cerca de 39% menos do que os brancos.

Ainda segundo o IBGE, o analfabetismo entre pessoas as pretas e pardas, é mais que o dobro do que entre as brancas. Vale salientar que no Brasil, 54% das pessoas são pretas ou pardas.

Por fim, ela faz um apelo: “Não dá mais para situações como essa, do garoto do Rio de Janeiro que foi acusado de roubar uma bicicleta. Não dá mais para as pessoas nos acusarem por coisas que não fizemos, baseadas em estereótipos preconceituoso  relacionados a cor da nossa pele.”

Fonte: Potyra Pereira

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