Na história da humanidade, os sonhos sempre tiveram um lugar de destaque. Todos os povos da antiguidade: Egito, Grécia, Mesopotâmia...possuíam templos dedicados aos sonhos, onde as pessoas vinham receber em sonhos as curas para suas doenças. Na religião, os sonhos eram tidos como um meio de revelações divinas e premonições futuras. Na bíblia, vemos profetas que receberam de Deus a capacidade de interpretar os sonhos. O próprio José foi avisado em sonho, pelo anjo Gabriel, que sua esposa estava grávida de uma criança divina. Os povos primitivos até hoje valorizam a importância dos sonhos. Para os xamãs, ele é a porta do mundo superior. Já a tribo Senoi, ensina as crianças desde pequenas a compartilharem seus sonhos. Eles são discutidos e interpretados, tanto na família como na tribo.
Se os sonhos sempre tiveram uma significativa importância, pela maioria das culturas, por que atualmente esse valor se perdeu para o homem ocidental? Somos seres movidos pela racionalidade e orientados pelo sentido tecnológico. Tudo aquilo que não podemos explicar pela ótica da razão, negligenciamos e não valorizamos. Por conta disso, os sonhos se transformaram em algo banal, sem lógica e sem sentido: totalmente sem valor.
Na Psicologia Analítica, desenvolvida por Carl Gustav Jung, os sonhos ocupam um lugar primordial na prática clínica. A consciência é apenas uma pequena parte do todo, a outra parte, muito maior, está no inconsciente. É o infinito que nos habita e busca se revelar para nos fazer crescer, desenvolver e evoluir.
Para Jung, o sonho é um processo natural que busca regular e equilibrar nossas energias físicas e psíquicas. Revelam a causa básica da desarmonia interior e da angústia emocional, como também indicam o potencial de vida do indivíduo, apresentando soluções criativas para as dificuldades enfrentadas. Funciona como uma ponte entre a consciência e o universo inconsciente.
Portanto, o inconsciente se comunica através dos sonhos. É a janela para a alma. Um material puro que não está contaminado pelo controle do Ego (centro da consciência). As imagens que aparecem nos sonhos, embora pareçam desconectadas da realidade, sempre revelam algo sobre nós mesmos, nossos relacionamentos e situações da vida. Tudo o que aparece no sonho está relacionado a nós. Em uma linguagem simbólica, metafórica e não literal. Não existe um manual de significados, mas sim o significado que o próprio sonhador associa aos símbolos presentes no sonho. Esse é o caminho para buscar entender a mensagem dada pelo inconsciente. A resposta está sempre em nós.
O sonho é o que é, sem disfarces. Quando a pessoa o analisa profundamente, percebe que existe coerência e uma grande sabedoria. Eles possuem uma inteligência superior, tem a finalidade de auxiliar naquilo que a pessoa precisa perceber para assim se tornar quem realmente é. Tudo o que negamos, reprimimos, escondemos de nós mesmos, aparece nos sonhos em um simbolismo estranho e confuso, com o propósito de nos auxiliar na integração desses aspectos de si mesmo. Eles são essa força orientadora, nos mostram onde se encontra nossa energia e para onde ela quer ir.
Dentro de um processo de análise, psicólogo e sonhador podem juntos explorar esses conteúdos e chegarem a amplificações que podem contribuir e esclarecer aspectos e dinâmicas da vida da pessoa.
Todas as pessoas sonham, embora alguns digam que não sonham. Não lembrá-los, pode acontecer por simplesmente não darmos atenção a eles, ao pouco valor que damos ao nosso mundo interno. O fato de nos interessarmos pelos sonhos e querer saber mais sobre eles, auxilia para que lembranças aconteçam e assim se tornem mais ricos e recorrentes. Anotá-los logo ao acordar, ajuda nesse processo de reter esses conteúdos na consciência. Ainda que não estejamos em atendimento psicoterápico, onde podemos trabalhar seus símbolos, o simples fato de anotar aproxima o sonhador de sua totalidade.
Dar atenção aos sonhos é dar atenção a si mesmo. Quando isso acontece, vamos nos conhecendo mais e através desse diálogo, expandimos nossa consciência, nos tornando seres mais inteiros. Vivendo com alma, conectando o consciente ao inconsciente e assim o Ego estará a serviço do sagrado que habita em nós.
"Nada é tão nosso como os nossos sonhos." Friedrich Nietzsche
Referências bibliográficas:
VON FRANZ, M.L. O caminho dos sonhos. São Paulo: Cultrix, 1992
Psicólogo Juliano G. Cechinel
Rua Hildebrando Pessi 12, Cidade Alta, Araranguá/SC
Av. Taquara 183, sala 501, Petrópolis, Porto Alegre/RS
Foto: jcomp | freepik.com